Meu sonho é que a gente não precise mais estranhar em uma mulher sendo um barbeiro ou uma mulher sendo qualquer outra coisa. Que ela tenha liberdade em ser o que ela quiser sem ser questionada, sem ser subestimada’, diz Fran Dias.

Lugar de mulher é onde ela quiser – e isso não tem nem que se discutir. Mas a presença delas em alguns ambientes dominados por homens ainda causa estranheza. Fran Dias, de 30 anos, sabe bem disso. Ela é dona de uma barbearia em Belo Horizonte e sonha com o dia que sua profissão não desperte mais tantos “nossa, mas uma mulher?”.

Há mais de dois anos, em sua barbearia, Fran está bem acompanhada de uma equipe formada só por meninas. Ela conta que foi pela curiosidade que muitos homens, hoje clientes fiéis, começaram a fazer barba, cabelo e bigode com elas.

O médico Robson Carvalho, de 33 anos, é um deles. “Passei aqui em frente, achei interessante o nome, vi as meninas aqui dentro e resolvi entrar e experimentar. Aí, já faz uns dois meses que eu gostei e virei cliente. No início, foi a curiosidade. Agora, que a gente se mantém é pela qualidade mesmo do serviço das meninas.”, afirma.

Para Fran, a profissão surgiu como brincadeira de criança. De tanto observar o tio barbeiro cortando o cabelo dos meninos da família nos almoços de domingo em Timóteo, na Região do Vale do Rio Doce, ela tomou gosto. “Esse desejo [de ser barbeira] foi brotando, sem que eu percebesse no meu coração”, afirma. Aos dez anos, depois de ganhar uma tesoura de presente da tia e de convencer um vizinho, Fran fez sua estreia.

Muitos homens que começara a frequentar a barbearia por curiosidade se tornaram clientes fiéis — Foto: Raquel Freita

“Ele falou: ‘você sabe cortar cabelo?’. Eu prontifiquei, dizendo que ‘sei, sim. Eu sei cortar cabelo, claro que sei cortar cabelo”, relembra. E, após esse primeiro corte, foram sete anos fazendo a cabeça dos meninos, rapazes e homens da vizinhança.

Apesar dessa experiência que se confundia com brincadeira, aos 17 anos, na hora de escolher uma profissão, a de barbeira não foi uma opção. “Naquela época, as profissões eram muito definidas por sexo. Então, eu não poderia ser barbeira. A minha opção era ser cabeleireira. Mas ser cabeleireira, eu já tinha certeza que eu não queria”, conta.

Por alguns anos, Fran deixou tesoura, máquina e navalha de lado e se tornou técnica em segurança do trabalho. Só em 2014, diante de um quadro de depressão e buscando se redescobrir, assumir-se barbeira profissionalmente passou ser um desejo.

‘Não é gênero que define a competência’, diz Fran Dias — Foto: Raquel Freitas/

E, com isso, veio também é uma missão. “O meu sonho é que a gente não precise mais estranhar em uma mulher sendo um barbeiro ou uma mulher sendo qualquer outra coisa. Que ela tenha liberdade em ser o que ela quiser sem ser questionada, sem ser subestimada”, diz.

Até dois anos atrás, o advogado Thiago de Castro, de 26 anos, nunca tinha feito um corte com uma mulher. Mas, desde que conheceu o trabalho da Fran e da equipe dela, nunca mais abriu mão. “É a melhor experiência que eu já tive para cortar cabelo até hoje, com certeza. Desde o início, ela me surpreende com o melhor que pode”, conta.

Fran defende que competência vem da dedicação e da paixão. “Não é gênero que define a competência, qualquer pessoa, independente do sexo, independente se é homem, se é mulher, pode elaborar um bom serviço entregar um bom trabalho, desde que ele dedique a esse trabalho, desde que ele seja competente naquilo que faz, desde que ele se especialize e desde que a pessoa tenha amor pelo que faz”, pontua Fran.

Por Raquel Freitas, G1 Minas

28/11/2018